Uma História do Mestre - A aluna Christina

(...) O Mestre estava em chalé no fim da tarde, lendo um livro perto da lareira, curtindo uma boa taça de vinho, fazendo o que um verdadeiro Mestre faz, ficar de bobeira de vez em quando. O Mestre dá muitas aulas e tem dias em que está bastante atarefado, mas o Mestre sabe que, de vez em quando, ele tem que tirar um tempo pra si mesmo. Então, estava sentado lendo o livro quando, de repente, um sino– heh! – tocou em sua cabeça. Ele não ouviu um sino de verdade, mas algo lhe chamou a atenção. Era um saber de que ele teria que largar o livro, vestir sua capa e sair pra dar uma caminhada.


Agora, o interessante é que o Mestre não sabia por que isso, mas o Mestre não questiona, porque, assim que a pessoa se questiona, ela começa a ir para a mente, perguntando: “Por que estou sentindo isso?” E: “Sou só eu?” Ou: “O que eu deveria fazer? O que o Espírito está tentando me dizer?” Não, não, não, não, não.

O Mestre sentiu o toque desse sino, uma sensação, vestiu a capa e saiu pra caminhar, sem saber o motivo, sem saber onde iria parar. E esse é um ponto muito importante para todos vocês. Vocês sentem algo e o que costumam fazer é pensar, diagnosticar, dissecar, analisar e ficar atordoados com isso. Agora é hora de entrarem no seu saber, como fez o Mestre. Ele vestiu a capa e saiu pela porta, sem saber se deveria virar à esquerda ou à direita ou seguir em frente, sem saber nada. Mas conhecendo a si mesmo e confiando em si mesmo o suficiente pra saber que chegaria do jeito certo, no lugar certo.

Ele caminhou por cerca de sete minutos, chegando ao pequeno lago no campus cercado por belas e imensas árvores, e, lá, no banco de praça nesse fim de tarde perto do lago, estava uma de suas alunas, Christina, chorando, sentada no banco de praça soluçando. O Mestre parou um instante. Ele já havia sentido que muitas coisas estavam acontecendo com Christina ultimamente, como se algo a estivesse atormentando, então, ele realmente não ficou surpreso em vê-la chorando. Ela era uma boa aluna. Era bastante dedicada e estava comprometida com sua Realização. Ela tinha um bom domínio básico de sua energia, mas havia algo interferindo nisso, algo atrapalhando o caminho.

Ele ficou lá de pé um instante, sentindo Christina, realmente sentindo se era bom se aproximar dela ou se, talvez, devesse se afastar. Mas ele sentiu isso, sem tentar encontrar palavras na mente e sem esperar que o Eu superior de Christina falasse com ele. Ele apenas sentiu a energia, como vocês deveriam fazer. Não fiquem mentais. Não se afundem no cérebro. Não esperem ouvir uma voz grandiosa. Apenas sintam a coisa. Assim é o seu saber. Foi o que o Mestre fez. Ele sentiu. E pareceu muito adequado se aproximar dela. Era quase como se as energias estivessem chamando por ele.

Então, ele – ahem – limpou a garganta – ahem – algumas vezes pra não assustá-la, ao se aproximar dela, no banco de praça. E ela permaneceu lá com a cabeça entre as mãos, soluçando. O Mestre se sentou ao seu lado, sem dizer nada, sem perguntar uma bobagem do tipo: “Como você está?” [Linda dá uma risadinha.] Como ela deveria responder a isso? Não é o que os humanos fazem: “Como você está?”; “Estou tendo um colapso. Não quero mais viver. E você, como está?” Não! [Linda ri.] O Mestre só ficou sentado lá... Que bom que estou entretendo a Linda. [Adamus ri.]

O Mestre ficou sentado ao lado dela... E se acostumem com isso, só ficar lá. O Mestre permitiu que sua luz brilhasse. Ele não teve que se esforçar pra isso. Ele não teve que apertar um botão e dizer: “Luz, vai lá.” O verdadeiro Mestre está sempre brilhando uma luz. O Mestre ficou sentado lá um instante, e não tentou enviar pra ela nenhum tipo de vibração positiva, não tentou curá-la, não ficou entoando nada nem rezando. Ele não tirou nenhum incenso do bolso pra acender e limpar o ar. Nada disso. Só ficou lá sentado. Foi a coisa certa a fazer. Era disso que ela precisava.

Ela não precisava de um monte de conversa nessa hora. Não precisava de um monte de sermão de um velho, E certamente não precisava do cheiro do incenso em volta dela. Às vezes, os humanos têm um conceito estranho do que é ajudar as outras pessoas, e é uma intromissão desgraçada, a meu ver. Às vezes, basta a presença – quando vocês sentem que há um convite, basta a presença – e poucas palavras, ou nenhuma.

Assim, o Mestre ficou sentado ao lado de Christina. Ela sabia que ele estava lá. Ela percebeu isso de imediato, e ele ficou lá sentado. Sem dizer nada. Sem tentar se impor a ela, simplesmente sentado lá. Depois de uns cinco minutos, Christina parou de chorar, meio que segurou a respiração, limpou o rosto, e o Mestre pegou no bolso da capa um frasco de conhaque e entregou a ela sem dizer nada. Ela bebeu um bocado e deu um grande suspiro de alívio.

Agora, não é que o Mestre deva sempre carregar um frasco de conhaque, mas não é uma má ideia fazer isso ocasionalmente. Era exatamente do que Christina precisava, algo que quebrasse toda aquela situação catártica emocional em que se encontrava. O Mestre sabia que ela precisava passar por isso, até certo ponto, mas também percebeu que ela se encontrava presa ali. Ela não saía do mesmo lugar.

O Mestre percebeu que havia questões na vida dela, coisas que não tinham se desenrolado do jeito que ela queria e, especificamente, tinham a ver com o relacionamento em que ela estava, um relacionamento que se estendeu por cerca de cinco anos. Ela não tinha se casado com esse homem, mas eles tinham vivido juntos, até que ele pegou as coisas e partiu praticamente sem avisar. Disse apenas "acabou”, e ela ficou devastada.

Christina disse ao Mestre, por fim: “Não é meu destino conhecer o amor.”

O Mestre continuou sentado lá. Tem vezes que é melhor não dizer nada. O Mestre ficou sentado lá, e ela disse: “Mestre, não é a primeira vez. O relacionamento anterior durou dois anos, e um outro mal chegou a oito meses. O que tive antes desse durou uns cinco, seis anos.” E ela disse: “Não é pra eu ter nenhum relacionamento nesta existência.”

O Mestre verdadeiramente compreendeu, pois, antes de permitir a Realização, ele havia passado de um relacionamento a outro tentando encontrar respostas, tentando encontrar um significado, tentando encontrar o amor, e nenhum deles deu certo. Ele sabia o que era enfrentar o lado obscuro do amor... mas acabar trazendo à tona o amor do Eu. E ele é o bastante. Mas, então, quando se tem o amor do Eu, é possível se ter um relacionamento com outra pessoa sentindo amor verdadeiro.

Christina começou a falar. Acho que o belo trago de conhaque ajudou a soltar um pouco sua língua. Mas ela começou a falar, dizendo: "Mestre, fiz terapia recentemente.”

Ao ouvir essa palavra, o Mestre revirou os olhos, do jeito que a Linda faz. “Terapia, ah, meu Deus. Terapia é para viciados.” Foi o que o Mestre pensou. Ele não ousou dizer isso para Christina, mas terapia é para viciados, com o tipo de terapia humana que existe agora. Eles estão viciados em seus problemas, e a terapia reforça esses problemas. A terapia faz com que entrem mais profundamente em seus problemas, em vez de resolvê-los. A terapia, muitas vezes, de fato, ajuda a criar mais a consciência de vítima e abusador do que qualquer coisa. E Cauldre está me repreendendo agora. Eu não estou falando de todos os terapeutas, mas a terapia, em geral, é assim. Não visa o que causa o problema; tenta remendar e consertar, e, quando não funciona, receita medicamentos.

Christina disse: “Mestre, tenho feito terapia ultimamente pra tentar encontrar respostas para o motivo de simplesmente eu não conseguir ter um bom relacionamento, para a razão de começarem bem – quando começam eu acho mesmo que encontrei o melhor amor de todos –, mas depois virem os desentendimentos. Aí, começam as argumentações. Depois, a frieza. Então, o silêncio. Aí, vêm as acusações e o que era belo e abençoado se torna ruim. A terapeuta me disse que estou criando tudo isso. E ela disse que o verdadeiro motivo – o que realmente está acontecendo – é que a minha criança interior está ferida, e ela quer que eu faça um retiro para a criança interior. Vai levar cerca de um mês e vai custar uns oito mil dólares, mas irei a esses seminários três ou quatro vezes por semana aprender sobre minha criança interior ferida.”

O Mestre pensou com seus botões: “Vou beber todo este frasco de conhaque se eu ouvir mais uma palavra sobre isso.” Porque ele percebeu que, não, isso é realmente um monte de lixo psicológico.

O Mestre escutou Christina falar um pouco mais. Ele sabia que era importante pra ela colocar isso pra fora. Ele mal dizia uma palavra. Ele concordava com a cabeça uma vez ou outra, revirava os olhos à beça, mas mal dizia uma palavra.

Por fim, quando ela meio que se cansou de falar, o Mestre acabou dizendo: “Christina, o problema não tem nada a ver com uma criança interior ferida. Na verdade, é o adulto que está ferido.

“Quero que você feche os olhos um instante, Christina, e se lembre de quando veio pra este planeta nesta existência, de quando você nasceu nesta existência. Quero que você se lembre de como era ter um imenso e puro saber sobre a razão de estar aqui no planeta, o puro saber do que você queria fazer e de onde queria ir. E isso permaneceu com você.

“Quando você tinha um e dois anos, você fazia coisas como falar com os elementais, com as fadas, comigo e com outros, e isso era realmente lindo. Quando você tinha três e quatro anos ainda mantinha essa recordação clara, apesar de estar ficando mais consciente do mundo ao redor, com suas idiossincrasias, seus desafios e suas dificuldades; mas ainda se lembrava de tudo claramente. E quando tinha cinco anos, talvez seis, ainda tinha essa consciência clara da razão pela qual você estava aqui e do que iria fazer.”

Ele continuou: “Christina, você não tem uma criança interior ferida. Ela sempre soube. Sempre, sempre soube. Você tem uma adolescente ferida e uma adulta ferida, uma adulta muito ferida. Mas toda essa coisa de criança interior ferida... não, não. Não é assim. É aquele tipo de coisa da Nova Era que soa bonito, mas sinta isso você.”

Ele prosseguiu: “Eu quero que você sinta essa criança interior. Traga ela aqui. Você sabe que não existe o tempo. Não existe passado nem futuro, então, seja sua criança interior agora mesmo. Sinta isso.”

Christina ficou lá sentada um tempinho com o Mestre em silêncio. De início, ela ficou agitada, porque, vejam, toda a estrutura era de que sua criança interior estava ferida, então, ela esperava uma criança interior ferida, e agiu assim. Mas ela continuou respirando, sentindo, e acabou... acabou conseguindo sentir seu eu mais jovem, sua criança interior, por assim dizer. E, de repente, ela sentiu a clareza da criança, que sabia por que tinha vindo pra cá, e isso foi preservado dentro dela. Ficou enterrado. Ficou... não perdido... mas ficou encoberto por tantas outras coisas na vida. Mas a criança interior, com sua pureza, com seu saber verdadeiro, ainda estava lá. E isso atingiu Christina como se fosse um tijolo. Isso a atingiu, e ela sabia exatamente que não havia uma criança interior ferida; eram simplesmente coisas que tinham acontecido na vida e que a tiraram do rumo, fazendo-a se desviar, ou pelo menos achar que tinha se desviado, de sua verdadeira missão, ou mixão, neste planeta.

Ela sentiu isso por um tempo, e isso começou a fluir dentro dela – a beleza dessa criancinha cristalina que ela era e, depois, todos os desafios, todas as nuvens e sombras, a escuridão da humanidade circulando e fazendo com que essa criança interior se escondesse, mas sem ficar ferida. Ela foi pra dentro pra se proteger e pra depois poder emergir no momento certo, com clareza.

Isso fluiu dentro dela, essa lembrança de seu eu criança puro e verdadeiro, e depois de todas as coisas que a fizeram se esconder lá dentro, de todas as coisas da sua adolescência, fosse o sentimento de ser leviana, de ferir outras pessoas ou de usar drogas quando muito jovem, ou de ter amores ruins ao longo do caminho. E, então, ela percebeu que, não, não havia nenhuma criança interior ferida, e que, se ela pudesse voltar àquele saber e àquela certeza dessa criancinha que ela era, isso a ajudaria a entender todas as coisas que aconteceram.

O Mestre pôde sentir que ela estava naquele ponto de reconexão, e disse: “Agora, respire fundo e deixe essa inocência juvenil retornar. Você endureceu por causa do mundo ao redor. Você se tornou cética e alheia a tudo isso. Agora, deixe que essa inocência volte. Chegou a hora.”

E ela deixou.

O Mestre sabia, agora, que esse era o momento de se levantar e ir embora. Agora era ela com ela mesma. Ela estava se unindo ou se reunindo consigo mesma. Ele se levantou em silêncio e quando estava prestes a ir embora, Christina olhou pra ele com seus lindos, mas ainda lacrimejantes, olhos, e disse: “Mestre, poderia deixar seu frasco de conhaque comigo?”

Queridos Shaumbra, vocês não têm crianças interiores feridas. Vocês têm esse eu interior, esse seu saber jovial, brilhante, inocente e puro que ficou escondido por um longo tempo. Ele não está ferido; nunca esteve. O humano, o adulto, o adolescente, talvez. E isso ficou meio que de lado, abrigado da loucura da vida. Mas é hora de trazer isso novamente.


(História contada por Adamus no Shoud A Arte de Ficar no Banco 3 )

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