A História de Giuseppe - preso na própria identidade

(...) Esta história aconteceu muito, muito tempo atrás. É a história de Giuseppe, um escultor talentoso muito especial. É a história de Giuseppe.


Então, Giuseppe adorava fazer esculturas de bronze. O bronze, é claro, é a combinação de cobre e estanho, e é relativamente fácil trabalhar com ele, considerando que... bem, é mais fácil do que trabalhar com o mármore, a pedra ou coisas desse tipo. Mas Giuseppe adorava criar tudo. Ele começou criando pequenas esculturas de bronze em miniatura, e depois elas foram ficando cada vez maiores. Ele fazia esculturas em tamanho real, e ficou conhecido em todo canto por ser o maior escultor de todos os tempos.

Um dia ele disse: “Quero fazer minha obra prima agora. Quero criar uma escultura fantástica de Deus.” De Deus. E, é claro, lá atrás, naqueles dias, todo mundo achava que Deus tinha a aparência de um velho. Então, ele desenhou essa escultura. Tinha cinco metros de altura. Era imensa, a escultura mais alta que alguém em toda a história já havia tentado fazer. E gastou muito tempo trabalhando no projeto de Deus. Mas, é claro, ele era um homem... vejam, as coisas realmente não mudaram muito desde então. As pessoas ainda consideram Deus um homem bem velho. Mas ele criou esse trabalho belo, prestando atenção a cada pequeno detalhe, ficando quase obcecado, sendo duro com seus aprendizes sempre que eles cometiam um pequeno erro ou faziam alguma confusão, porque ele queria que essa fosse uma escultura que perdurasse em honra a Deus. E talvez que mostrasse às pessoas que Deus estava sempre presente. Deus não estava lá em cima no céu, em algum lugar, mas Deus estava aqui na Terra, na forma de uma escultura.

Assim, chegou o dia em que eles verteriam o bronze derretido no molde. Você conhece os moldes, você trabalhou com metal, querida Linda. Chegou o dia, então eles estavam misturando o bronze derretido num imenso tanque. Era um imenso tanque de bronze derretido. O fogo estava alto, e o bronze, liquefeito por causa do fogo, borbulhava e mostrava que estava pronto para ser vertido na primeira metade do molde.

Nessa altura, Giuseppe, muito cuidadoso com cada pequeno detalhe, queria saber exatamente a consistência do bronze derretido. Queria saber se estava na temperatura certa e se tudo mais estava certo, se as cores certas tinham sido acrescentadas para dar um efeito extra. E ele estava olhando, estava se debruçando sobre o grande caldeirão de bronze aquecido, quando ele... [Linda se exalta.] Ele estava olhando e acabou se debruçando demais.

LINDA: Oh!

ADAMUS: Caiu direto no tanque de bronze derretido.

Agora, vocês devem achar que esse seria o fim da história, mas é claro que não. Não, não. Este é um conto de Adamus. A história continua.

No momento em que seu corpo atingiu o bronze líquido quente, ele se misturou a ele. Ele não queimou. Simplesmente se misturou e imediatamente se transformou em pequenos cristais dentro daquele bronze. Ele se cristalizou. E o engraçado era que se podia esperar que, bem, o pobre Giuseppe tivesse virado, vejam bem, basicamente, um Giuseppe assado ou um Giuseppe frito nessa altura, mas não. Ele agora estava nesse bronze derretido, e ele podia sentir a si próprio. Ele podia se ouvir. Ele estava consciente. O calor não estava queimando sua pele, porque ele não tinha mais nenhuma. Ele tinha sido inteiramente cristalizado. Mas ele estava no meio da experiência, desse líquido que, em breve, seria Deus, e ele estava ali.

Bem, os aprendizes estavam ocupados e distraídos. Tinham muito o que fazer. Giuseppe tinha passado a eles muitas instruções sobre o tempo que aquilo tinha que ficar ali pra dar tudo absolutamente certo. Então, sem saber onde estava Giuseppe – eles pensaram que talvez ele tivesse ido ao banheiro –, verteram o bronze derretido no molde. Depois, na outra metade do molde, e juntaram as duas partes. E agora eis que Giuseppe estava dentro da própria escultura.

O bronze esfriou, eles removeram o molde e admiraram a beleza dessa escultura de Deus gigantesca. Estavam maravilhados com sua aparência, não só como escultura, mas como parecia real. Era muito alta e parecia muito poderosa, encarnando sua autoridade e poder.

Bem, eles ficaram ocupados fazendo os retoques nessa estátua, aparando algumas arestas, alisando aqui e ali, e ninguém se importou em perguntar onde estava Giuseppe. E a estátua ficou lá alguns dias antes de poder ser levada por um exército de homens para a praça do povoado e erigida no topo da plataforma que tinham construído para ela. E eis que Giuseppe está dentro da estátua, literalmente fundido no bronze. Ele podia ouvir a si mesmo. Ele podia sentir a si mesmo. Ele podia ouvir os outros falando e se perguntava: “Como ninguém quer saber onde Giuseppe está? Cadê o Giuseppe?” Mas, bem, ele era conhecido por amar as mulheres da cidade e imaginaram que ele pudesse ter fugido com alguma jovem e talvez jamais voltasse. Mas era tarefa deles erigir essa linda escultura, e assim o fizeram.

E, agora, lá estava a escultura de Deus olhando para o povoado e para as pessoas do povoado com Giuseppe dentro dela, trancado lá, sem poder sair. Ele tentou gritar, ninguém ouviu. Ele tentou forçar sua saída, mas, ah, o bronze era muito forte. De nada adiantaria. Ele se perguntou: “E agora? O que vai acontecer com Giuseppe?”

Não levou muito tempo para as pessoas realmente se esquecerem dele. Repito, elas presumiram que ele fugira da cidade com alguém, por algum motivo ou sabe-se lá o quê. Mas, muito rapidamente, os aldeões passaram a honrar todos os dias a estátua de Deus, sem saber que Giuseppe olhava para eles. Ele podia senti-los, vê-los, ouvi-los.

E, então, uma geração depois da outra seguiu admirando essa estátua de Deus. As pessoas vinham de longe pra ver esse trabalho e, tão logo, se esqueceram de quem, de fato, havia sido o artista que o fizera. Era simplesmente Deus. Tão logo, diziam no interior que essa estátua simplesmente havia aparecido um dia e ela possuía características estranhas. Mesmo que fosse de bronze, quase parecia viva, às vezes. Alguns falavam que, à noite, ele emitia um brilho. Alguns alegavam ouvir vozes saindo dela.

Geração após geração, eles fizeram fila pra ver essa estátua de Deus. E todo o tempo Giuseppe olhava pra eles se perguntando se algum dia ele sairia da estátua.

Ele se impregnou tanto na estátua depois de um tempo que acabou se tornando a estátua. Não havia mais realmente um Giuseppe. Havia apenas a estátua. Ele se esqueceu de quem ele era. Ele se esqueceu de seu nome depois de um tempo. Ele era agora apenas a estátua e ficou lá dia após dia com todos o admirando e venerando.

Muitas gerações se passaram agora, e o peso dos anos começou a ficar evidente na estátua – o vento, as chuvas, as tempestades e, especialmente, os pombos. E, aos poucos, a estátua de Deus, criada por Giuseppe, começou a se deteriorar. Rapidamente, deixou de ter o charme que tinha quando era nova, em seus primeiros 100 anos. Rapidamente, foi ficando velha e suja. As pessoas dos arredores pararam de visitá-la. As pessoas do vilarejo pararam de venerá-la ou pedir que suas preces fossem atendidas. Rapidamente, tinha sido quase esquecida. A vegetação começou a crescer ao redor, árvores se elevaram sobre ela. E, rapidamente, havia sido praticamente esquecida, com Giuseppe preso dentro dela.

E, então, um dia, depois de mil anos ou mais, com a estátua de Deus de pé no alto do povoado, mas agora completamente esquecida, um dia, veio uma enorme tempestade. Ela cruzou o horizonte na forma de um imenso tornado que foi em direção ao povoado, passando direto pela estátua de Deus, feita por Giuseppe. Foi direto pra ela. Nessa época, a estátua já estava muito desgastada, esburacada, não tinha mais muitos dos detalhes, perdera a cor, era algo insignificante. Não tinha mais graça, e esse tornado a atingira de cheio, derrubando-a ao chão e quebrando-a em mil pedaços.

E, nessa altura, toda essa comoção acordou Giuseppe. Depois de mais de mil anos preso em sua própria escultura, ele acordou. E, ao despertar, ele não conseguia saber ao certo quem ele havia sido, mas sabia que tinha ficado preso nessa escultura por muito, muito tempo. Ao despertar, sentiu uma espécie de medo o dominar: “Quem sou eu agora? Não sou mais essa estátua. Não sou mais a estátua de Deus. Quem sou eu agora? Eu estou livre, mas o que isso significa? O que eu faço com a minha liberdade? Não estou mais dentro desta estátua. A estátua está em pedaços agora, toda espalhada ao redor. Mas quem sou eu? Não tenho mais uma identidade.”

Então, Giuseppe ouviu uma voz vindo de dentro dele, e essa voz disse: “Bem, você é Deus. Heh! Você representou esse papel pro mais de mil anos na forma de uma estátua. Agora, saia e viva. Você é Deus.” E Giuseppe disse: “Bem, realmente não tenho outra escolha, porque não lembro quem eu era. Não tenho mais qualquer noção de identidade. Fiquei trancado nessa estátua e esqueci que eu era. Posso muito bem simplesmente sair. Liberdade, não sei o que isso significa. Sei que estou livre, mas o que isso significa?”

Giuseppe, assim como Kuthumi, começou a caminhar. Ele começou a ter experiências e, aos poucos, algumas de suas lembranças como Giuseppe voltaram, bem como lembranças do que ele soube mais tarde que eram suas vidas passadas. Lentamente, ele começou a perceber que ele mesmo tinha se trancado em sua própria identidade como Giuseppe, o famoso escultor. Ele havia se prendido numa identidade tão limitada que se esquecera de se libertar e se expressar. Ele se esquecera de que podia ter criado a si mesmo do jeito que quisesse, em qualquer momento, mas ele ficara tão preso em si, em sua expressão de escultor grandioso que, bem, literalmente, isso se traduziu em sua prisão dentro de sua própria escultura.

Então, ele caminhou muito, viajou, encontrou pessoas e o tempo todo resistiu a desenvolver uma identidade definida novamente. Ele se deixou ter uma identidade. Ele se deixou apreciar sua expressão, mas resistiu a ficar preso numa identidade única novamente. Ah, não. Não depois de mil anos na escultura de Deus.

Agora, ele percebia como era divertido. Um dia, ele podia ser uma coisa. No dia seguinte, ele podia ser outra. Ele podia ser um padeiro. Ele podia ser um artista. Ele podia ser um político. Ele podia ser qualquer coisa que quisesse ser. Ele podia apenas ser alguém que caminhava de vilarejo em vilarejo, curtindo a vida, falando com outras pessoas. Ele percebeu que é muito fácil ficar preso numa identidade, quando o verdadeiro Deus interior diz: “Você é todas as identidades, qualquer coisa que quiser ser. E, sim, você pode mergulhar fundo numa delas. Você pode ficar preso numa escultura, mas você sempre será livre, sempre será livre pra criar uma nova identidade que você queira para si.”


(História contada por Adamus no Shoud A Arte de Ficar no Banco 2 )



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