O Mestre e o estudante Roger - O Jogo de Futebol
(...) O Mestre disse a Roger pra encontrá-lo... [Adamus ri.] Cauldre está perguntando: “Como você vai fazer, Adamus? Você nem conhece a história.” Diabos, não. Veremos onde vai dar. [Algumas risadas] Toda história precisa de um ponto de partida. E não precisa começar do começo, na verdade. Vocês podem começar de algum lugar no meio, mas o importante com uma história, incluindo a de vocês, é deixar rolar. Deixem rolar.
Então, o Mestre disse a Roger pra encontrá-lo no estacionamento precisamente às 11 horas, sábado de manhã. O Mestre fazia isso de tempos em tempos com os estudantes, levava eles pra sair, individualmente, fora da sala de aula, longe de todas as outras pessoas. O Mestre, de vez em quando, saía com um estudante pra conversar com ele sobre coisas que estavam acontecendo na vida dele. Então, o Mestre disse: “Roger, encontre-me às 11 horas. O meu carro é um carro esporte vermelho que vai estar no estacionamento. Eu não dirijo um Honda.” [Algumas risadas] Me desculpem.
Então, Roger estava bastante apreensivo. Sabia que seria difícil. Sabia que o Mestre falaria coisas pra ele. Sabia que o Mestre olharia fundo em seu coração, mas ele estava pronto. Sabia que era a hora. Ele estava se esforçando. Roger estava lutando com todo o conceito do saber. Vejam, ele conhecia as palavras. Ele entendia o conceito do saber, mas, que droga, ele estava tendo dificuldades pra pôr isso em prática na vida. Ele realmente estava lutando: “O que é o saber? E como eu entendo a diferença entre saber e todo o resto? E como eu sigo algo como o saber, se nem sei o que ele é?”
Então, Roger ficou particularmente apreensivo quando se aproximou do Mestre. Ele chegou faltando cerca de cinco minutos para as 11 e o Mestre já estava lá, com seu carro esporte já roncando. O Mestre disse: “Roger, entre. Feche a porta.” E ele disse: “A propósito, Roger, não, você não vai dirigir o meu carro.” Ele podia sentir isso vindo de Roger. Roger queria entrar e experimentar ele mesmo como é dirigir aquele lindo carro esporte. Devia ter custado uma fortuna. De fato, Roger nem tinha carro. Ele ia a pé pra todo lado. Ele pegava ônibus, às vezes, mas não tinha carro. Pobre Roger. [Algumas risadas] É por isso que Roger tinha que frequentar esta escola espiritual. [Mais risadas] Pra aprender a trazer abundância pra sua vida e parar de pegar ônibus.
Roger entrou, fechou a porta e – errrrr! – o Mestre deu a partida e os pneus cantaram estrada afora. Eles ficaram em silêncio por um tempinho. O Mestre estava se divertindo no volante; ele adorava dirigir velozmente. Nunca levou uma multa por alta velocidade. Ele adorava dirigir rápido. O tremular do vento, quase aquele medo de ser apanhado, mas nunca sendo realmente. Era emocionante para o Mestre. Vejam, ele passava muito tempo com os... [Adamus finge bocejar.] ... estudantes na sala de aula. Me desculpem a chatice. [Algumas risadas] Ele passava muito tempo com os estudantes na sala de aula e, às vezes, ficava muito entediado. Ele precisava sair pra passar um tempo assim.
(...)
Assim, eles iam pela rua no carro esporte e Roger estava se perguntando quando o Mestre começaria a falar, quando ele começaria a conversar sobre os problemas de Roger. Mas, em vez disso, para surpresa de Roger, o Mestre, de repente, se dirigiu para o estádio de futebol seguindo o resto do tráfego. O Mestre estava cortando pra lá e pra cá. As pessoas buzinavam e se desviavam do Mestre. E ele estava sorrindo. E Roger se perguntava: “Por que estamos indo ao estádio de futebol?” E o Mestre pode sentir a pergunta de Roger e respondeu: “Roger, porque é sábado e tem um jogo de futebol universitário. É por isso que vamos ao estádio.”
Roger coçou a cabeça e pensou: “Eu achava que ia ter esta oportunidade de conversar com o Mestre e falar sobre diversos assuntos. Achava, talvez, que íamos até o lago. Eu sei que o Mestre gosta de pescar, mas vamos a um jogo de futebol. Por que será?” Roger pensou: “Eu nem gosto de futebol.” Ao que o Mestre, sentindo seus pensamentos, disse: “Eu adoro futebol. [Risadas] Adoro futebol por causa da dualidade. É uma dualidade absoluta. Você festeja, grita e berra. Nem sempre é algo legal, nem sempre se faz a coisa certa, nem sempre se é santo e sagrado e tudo mais. Temos que ir lá. Vamos comer uma porcaria de comida. Vamos beber cerveja. Vamos praguejar. Vamos xingar o técnico. Vamos vibrar pelo nosso time. Vamos viver, Roger. Vamos viver.”
O Mestre encontrou uma vaga bem na frente. Ele não precisava pensar com antecedência, como alguns de vocês fazem: “Tenho que achar uma vaga na frente. Vou enviar minha energia.” Calem a boca! A vaga já está lá. Vocês não têm que pensar nela. Vocês não têm que colocar um holofote ao redor. Não precisam enviar energia com antecedência. Vocês assumem que a vaga está lá, e ela está. Vocês não precisam fazer sessão espírita pra achar vagas. Eu vejo alguns de vocês fazendo esses estranhos rituais e rodeios. Parem com isso! A vaga está lá.
E o Mestre sabia disso. Ele estacionou bem na frente. Entraram no estádio. O Mestre olhou os bilhetes. Na verdade, ele tinha dois pares de bilhetes. Ele tinha bilhetes. Ele tinha bilhetes para camarote que alguém deu pra ele. Ele não sabia quem. Vejam, essas coisas aparecem no bolso de vocês e vocês nunca pergunta de onde vieram. Vocês deixam pra lá.
E ele tinha outro par de bilhetes. Eram para arquibancada na fileira 20. Bons acentos. Bons. E o Mestre pensou: “Qual deles? No camarote ou na arquibancada?” Ele olhou para o Roger: “Na arquibancada.” No caminho até lá, eles pegaram dois copões de cerveja, ambos para o Mestre. [Risadas] E cachorros-quentes. E Roger pegou sua barra de granola. [Mais risadas] E se recusou a comer a comida e beber a bebida do estádio. O Mestre não ligava, porque o Mestre sabia que podia comer ou beber qualquer coisa. Todos esses medos esquisitos de comida, de bebida e do que faz mal, o Mestre transcendeu há muito tempo. Agora, ele conseguia realmente curtir a vida. Ele podia comer o que quisesse, beber o que fosse e fazer o que desse na telha. Ele não estava limitado por essas velhas regras, as velhas regras “de como chegar à iluminação”, porque ele se realizou, há muito tempo, sendo ele mesmo.
Então, eles foram, se sentaram e quase imediatamente o jogo começou. Ah, obrigado. [Linda trouxe café fresquinho pra ele.]
(...)
Então, eles se sentaram e quase que imediatamente teve o chute inicial e o grito da multidão quando o time do Mestre recebeu a bola e todos começaram a correr. O grito da multidão... é quando vocês entram.
ADAMUS E A PLATEIA: Yayyy!
ADAMUS: Yeah, ótimo. O jogo tinha começado. O jogo tinha começado e, depois de alguns minutos, o Mestre, depois de dar um gole na cerveja – ou no café quente –, o Mestre olhou para o Roger e perguntou: “Então, Roger, qual é o problema?” E Roger estava estressado, estupefato: “Por que estou sentado, aqui, no jogo de futebol, indo conversar com o Mestre sobre este problema? Eu queria estar num lugar tranquilo, sem essa gente.” O Mestre disse: “Roger, é agora ou nunca. É agora ou nunca. O que está acontecendo?” E Roger disse: “Bem, veja, eu estudei muito. Estou na sua escola há seis anos, gastei muito dinheiro” – blá, blá, blá, eles sempre dizem isso –, “gastei muito dinheiro e não sinto que esteja realmente chegando a lugar algum. E a questão é que eu não entendo. Tenho essas vozes na cabeça o tempo todo, mas elas também não fazem sentido. Estou ficando louco com tudo isso.” E, nessa altura, o time do Mestre fez um gol e a multidão enlouqueceu. [A plateia vibra alto e Adamus ri.]
O Mestre disse a Roger: “Bem, Roger, me fale um pouco mais sobre o que está acontecendo.” Roger disse: “Bem, veja, Mestre, você fala do saber – do saber – e soa muito fácil. Soa como se a gente devesse meio que saber das coisas.” E o Mestre concordou com a cabeça, deu um gole na cerveja, deu uma mordida no cachorro-quente e disse: “Bem, é. Você simplesmente sabe.” Ele disse: “Mas, Mestre, estou tentando entender o saber e é muito confuso. Fico ouvindo todas essas vozes na minha cabeça e, às vezes, acho que é você que está na minha cabeça. Às vezes, acho que um arcanjo na minha cabeça e, às vezes, acho que é, de fato, um demônio na minha cabeça. Às vezes, é a minha mãe na minha cabeça. Às vezes, é uma antiga professora. E é tudo muito confuso, porque ouço todas essas vozes na minha cabeça o tempo todo. Isso é o saber, Mestre? Isso é o saber?” O Mestre parou um instante porque seu time recuperou a bola do outro time, e a multidão enlouqueceu. [A plateia vibra novamente.]
A galera estava muito barulhenta naquele dia. Falando, gritando e berrando. Yah, yah, yah! Yeah! Yah, yah, yah, yah! [A plateia faz um monte de barulho.] Era barulho pra todo lado. [A plateia continua fazendo barulho.] Tinha gente bebendo e comendo cachorro-quente – nhac! nhac! nhac! – e todo aquele barulho!
Mas, apesar disso, o Mestre continuava falando com Roger: “Roger, isso não é saber. Não é saber. Isso são velhas gravações na sua cabeça. São registros, registros energéticos na sua cabeça, que ficam reforçando a sua história, fazendo com que você continue rodando a mesma história o tempo todo. E eles deixam você muito confuso. Deixam você muito confuso com o que você deve fazer e você presta atenção. Roger, eu ouço você falando, de vez em quando, sobre os guias espirituais. Não existem guias espirituais para os que estão aqui no caminho. Roger, o saber não se parece com nenhuma dessas vozes que vocês fica ouvindo. De jeito nenhum.”
E, nesse momento, já tendo se recuperado e feito algumas jogadas, o time do Mestre marca outro gol. A multidão enlouquece. [A plateia vibra novamente.] E, por sinal, isso vai continuar o dia todo. O time do Mestre detonou o outro.
E eles conversaram um pouco. O Mestre fez ao Roger mais perguntas sobre o que ele sentia, não sobre o que ele ouvia na cabeça, mas o que ele sentia. E conversaram por bastante tempo até que o Mestre disse: “Roger, o negócio é o seguinte. Você tem saber. Ele está aí. Todo mundo, na verdade, tem saber, mas o seu é realmente muito bom. Mas você o distorce e o perde em meio ao ruído que está na sua cabeça, em meio ao lixo e a todas as atividades que estão na sua cabeça.
“Foi por isso que eu o trouxe a este jogo de futebol pra ter esta conversa, porque todos esses tolos vibrando, gritando e berrando... [Ele pede gesticulando e a plateia vibra e grita.] ... são como as vozes na sua cabeça. Distraem e tornam difícil pra você encontrar, ouvir a voz do saber interior. É por isso que eu trouxe você aqui, porque, bem, a vida, de certa forma, é assim. Nem sempre tão intensa como num jogo de futebol, mas a vida é assim com a dualidade, a consciência de massa. Há sempre a comoção, a distração, a dualidade, os gritos e as vibrações, como também os lamentos. Está vendo o outro time? Estão chorando agora. O choro e o desespero.” É, o choro...
PLATEIA: Boo hoo!
ADAMUS: Boo hoo! Boo hoo! Boo hoo! “Foi por isso que eu o trouxe ao jogo, Roger, porque eu queria que você visse o que realmente está acontecendo dentro da sua cabeça.” E Roger pensou um instante: “Realmente, é de fato uma boa comparação. Está me ajudando a entender todas estas vozes, todos os jogos que estão rolando na minha cabeça.”
Roger pensou por mais algum tempinho e disse, por fim: “Bem, mas, Mestre, você não disse que eu sou muito bom no meu saber? Que eu tenho muito saber?” O Mestre respondeu: “Sim, você tem, realmente. Você faz isso bem naturalmente.”
Roger perguntou: “Mas se eu tenho saber, por que não consigo encontrá-lo? Se eu o tenho, por que não o estou usando?” E, com isso, o Mestre sorriu. Ele sabia que a conversa chegaria neste ponto. Ele falou: “Roger, só tem uma coisa. O que você faz com o seu saber, com essa... não é nem uma voz interior, Roger; é um saber, um sentimento... é um sentimento, mas o que você faz com isso é tentar humanizá-lo. Roger, você tenta colocá-lo numa voz humana, e não é assim. Você tenta colocá-lo em pensamentos mentais, e não é assim. Você tem esse saber dentro de si, e ele sempre esteve lá, mas você não o escuta a menos que ele soe como outro guia espiritual, outro arcanjo, outra mãe, outro professor, outro humano. Essa é a questão. Você tenta humanizá-lo.”
O Mestre prosseguiu: “Eu entendo o porquê. Todo mundo tenta humanizar tudo. Todos tentam enquadrar as coisas numa caixa bacana. As pessoas querem ouvir vozes. Você não vai ouvir vozes com o seu saber. Você não vai ouvir vozes com os verdadeiros sentimentos interiores, e isso é uma coisa boa. Você não vai querer humanizar algo que é tão precioso, que é tão puro. Você não vai querer colocá-lo numa voz. Você não vai querer trazê-lo pra esse nível. É esse saber interior que segue sem definição, que não precisam de uma estrutura humana. Não precisa soar como um professor palestrando na sua cabeça ou um anjo lhe dizendo o que fazer.
“Todas as vozes, por sinal, eram suas. Não eram de guias espirituais. Não eram de anjos. Os anjos não falam com palavras humanas. Tem a ver com sentimento. Tem a ver com sensualidade. Essas eram todas as suas vozes das velhas histórias se repetindo na sua cabeça. Então, Roger, no momento em que você parar de tentar humanizar o saber, o Eu Sou, e se permitir estar aberto ao verdadeiro sentimento, à verdadeira percepção, ele despontará. É quando ele vai aparecer.”
Roger sentiu isso por um instante e, mesmo estando num estádio de futebol, mesmo havendo toda a zoeira, a gritaria e as lamentações, Roger sentiu isso por um instante e, nesse espaço seguro, nesse espaço estranhamente seguro no meio da consciência de massa, agora bem próxima de presenciar outro gol, apesar de tudo isso, Roger enfim assimilou. Parar de tentar transformar o saber em algo humano. Apenas o permitir.
O Mestre sabia que seria difícil pra Roger ou pra qualquer um, porque sempre há o desejo e a tentativa de ouvir as palavras ou ver as imagens e essas coisas. Mas, quando alguém consegue estar no próprio saber sem defini-lo, sem precisar entender como ele se manifestou ou pra onde ele vai levar, se ficar num estado puro de consciência, esse saber o guiará. Ele irá mostrá-lo quem ele realmente é. Esse saber será a iluminação dele.
E, com isso, o Mestre disse: “Bebi um copão de cerveja. Vou tirar a água do joelho. Quer que eu pegue algo pra você, já que vou pra lá?” [Risadas] E assim termina a história do Mestre e de Roger. [Aplausos da plateia]
É uma história e é... [Alguém diz: “Sinistra.”] ... em parte, é sinistra, sim. Em parte é sinistra, em parte é verdadeira, mas vocês estão no meio de toda essa barulheira. Quer estejam num jogo de futebol, quer estejam fazendo compras, mesmo quando estão em casa sozinhos, tem uma barulheira infernal. Tem o ruído energético das luzes e do que chamam de frequências de rádio. Tem ruído em toda a volta. Tem o ruído que vem do seu computador, mesmo que esteja desligado – digo, fora da tomada mesmo. Tem um ruído que fica saindo dele, porque ele reúne energia dessa coisa que chamam de Internet e expele esse barulhinho o tempo todo.
Vocês não vão conseguir se afastar ou fugir disso, nem deveriam ter que fazer isso. Sim, é bem mais fácil acessar o seu saber se forem caminhar na floresta num adorável dia de outono. Bem mais fácil, mas dá pra fazer isso em qualquer lugar.
Não esperem palavras. Por favor, não esperem ouvir palavras. O saber, o Eu Sou interior não fala com palavras, nunca falará, nem vai querer fazer isso. Todas essas vozes na cabeça de vocês, falando com aqueles que atribuem as vozes aos guias e anjos, às vidas passadas e às vidas futuras e a todas essas outras coisas, elas são vocês mesmos. Elas são partes da história. São personagens da sua história. São vocês. Tudo bem com elas, mas não cedam a elas. Não as coloquem num pedestal. Não pensem que elas têm um poder superior. São só personagens da sua história. Só isso.
O verdadeiro saber vem com uma noção... bem, o saber vem com uma noção de facilidade. É sem esforço. É sem luta; vem sem dúvida. Está lá. Vocês não conseguem fazê-lo se manifestar. Vocês não conseguem trazê-lo, em maior ou menor quantidade, pra sua vida, porque ele sempre esteve lá. É uma questão de parar de tentar humanizá-lo, de parar de tentar dar uma voz, um rosto, uma diretiva, palavras a algo que é, simplesmente, a voz, a essência do Eu Sou.
(História contada por Adamus no Shoud Transumano 4)