O Mestre e o estudante Patrick - a Beleza do Nada

 O estudante está deitado em sua cama depois talvez do pior período da sua vida. Ele passou 21 dias com uma enfermidade incessante, caos mental, confusão, desesperança e, em geral, sem saber o que fazer, onde estava. Nesses 21 dias, ficou totalmente sozinho, com ele mesmo e, na maior parte do tempo, sem conseguir sequer se alimentar, tal o estado de caos em que se encontrava.

Começou com o corpo físico ficando doente, e ele achando que talvez tivesse pego um resfriado ou uma gripe, mas nenhum sintoma parecia condizer com isso. Era tudo uma confusão. Ele não queria ir ao médico, porque sabia, por experiência anterior, que pouquíssimos dos que estão na indústria da saúde realmente entendiam o que acontecia com quem passava pelo despertar e pela iluminação.

Então, ele se deitou na cama por esses 21 dias, sem saber ao certo se estava sonhando ou se estava acordado, o que era real e o que não era.

Era uma experiência horrível ter que enfrentar a si mesmo das piores e mais sombrias formas que se pode imaginar, enquanto o corpo passava por um estado de grande sofrimento. Muitas vezes, suando profusamente; muitas vezes, sentindo tanto frio que nenhum cobertor ou calor conseguia aliviar a profunda agonia física interior.

Foram os piores momentos e, algumas vezes, ele desejava ser levado, ser liberado do corpo físico; algumas vezes, ele praguejava contra o fato de ter pensado no despertar ou mesmo perseguido qualquer interesse espiritual, pois agora, nesses 21 dias de grande agonia física e mental, nenhuma palavra que tinha ouvido, lido ou aprendido com os professores fazia sentido nem podia sequer resolver a situação em que se encontrava.

Patrick, o estudante que ficou de cama por 21 dias, estava sozinho e infeliz.

Ao final dos 21 dias, ele começou a sair dessa escuridão terrível, terrível, em que tinha estado, ainda inseguro de quem ele era ou do que tinha acontecido. Estava cheio de dúvidas. Estava cheio de incertezas e ainda com muitos conflitos. Mas podia sentir que algo tinha mudado nessas três semanas. Algo tinha mudado.

Subitamente, o Mestre apareceu diante dele. Patrick, o estudante, pensou por um instante: “Realmente, não estou gostando disso, o Mestre aparecer de repente. Não ouvi passos. Ele não bateu na porta nem se anunciou e, no meu estado ou na minha condição, nem sei se ele está ali, fisicamente ou não.”

Mas outra parte dele ficou aliviada de que o Mestre estivesse lá. Era um certo retorno ao que se pode chamar de normalidade, um retorno a algo com o qual podia se identificar. E o fato de o Mestre estar lá significava ou que ele tinha passado por esse período muito difícil ou que ele estava morto.

Ele disse em voz alta: “Querido Mestre, sinto como se tivesse morrido. Eu morri?” O Mestre respirou fundo e olhou pra baixo, pra cama onde Patrick estava deitado e, por um instante, sentiu uma certa tristeza, ao lembrar dos momentos tão desafiadores e difíceis que ele mesmo vivenciou, iguais a esse – ser totalmente dilacerado, de todas as formas, ficar perdido e confuso e se sentir no próprio inferno.

O Mestre olhou para Patrick e disse: “Não, meu amigo, você não está morto. Você está bem vivo. Não, meu amigo Patrick, pode-se dizer que, antes desta experiência, antes disso, é que você estava verdadeiramente morto. Você vivia numa grande limitação. Você vivia num estado de medo. Você vivia num estado de não manifestação do verdadeiro Eu Sou. E isso, pra mim, é estar mais morto do que simplesmente deixar ir o corpo físico. Mas não, meu caro amigo Patrick, você passou por isso e está bem, bem vivo.”

Patrick respirou fundo e sentiu um imenso alívio abarcar sobre ele, sabendo que, na verdade, ainda estava vivo. Ele aguentou esses 21 dias muito difíceis.

Patrick perguntou ao Mestre: “Mestre, esta será a última vez que vou vivenciar esse caos implacável e penoso no meu corpo e na minha mente?”

O Mestre respirou fundo e disse: “Patrick, não, não é a última vez. Mesmo um Mestre, mesmo um Mestre Ascenso ainda passará por períodos assim. É uma limpeza. É uma liberação. Porque quando você está associado às coisas da Terra, quando está associado consigo mesmo como humano e com outros seres humanos, você sempre vai acumular esse ranço, esse piche e a sujeira e os desequilíbrios do estado vibracional. Porque realmente viver no estado humano, viver neste lugar chamado Terra não é uma coisa natural. É uma experiência incrível, mas não é natural. E, quando você encarna e incorpora aí, você sempre vai pegar os desequilíbrios, a sujeira e o ranço da vida.

“Então, você passará por isso, mas a boa notícia é que, no futuro, você vai passar por isso mais como um observador. Você não ficará tão intimamente envolvido e não se perguntará se vai conseguir passar por isso. Você já saberá que vai. Sim, o corpo poderá adoecer e, sim, às vezes, a mente ficará confusa. Mas, como observador, como Mestre, você perceberá que já passou por isso. Não ficará se perguntando se dará certo ou não. Essa pergunta já estará respondida. Sim, dará certo. Então, é só permitir que esse processo muito natural aconteça, essa limpeza e essa renovação.”

Patrick disse ao Mestre: “Mas isso não é algo que eu possa fazer noutra esfera ou noutra dimensão? Por que tem que ser aqui e, portanto, tão difícil?”

E o Mestre explicou novamente a Patrick: “Porque você está acumulando isso aqui. Você está passando pelas experiências aqui. Então, não dá pra levar essas coisas pra outra dimensão a fim de limpar-se. Você precisa fazer isso a partir de dentro.

“Mas, novamente, lembre-se, querido Patrick que, ao passar por essas experiências novamente no futuro, você será o observador. Entenda, aqui, neste período que você teve de 21 dias, você não era o observador. Você era, talvez possa se dizer, a vítima. Você entrou tão profundamente nisso que não podia ver que já tinha passado por isso. Você entrou tanto na experiência da dor, da dúvida e do medo que não podia ver que, na verdade, foi só um tempo de rejuvenescimento e de limpeza. As dúvidas turvaram seus pensamentos verdadeiros, seu verdadeiro saber e seu Eu Sou, a ponto de esquecer quem você era e esquecer o próprio Eu Sou, Patrick. E isso não acontecerá novamente.”

Patrick respirou fundo; uma respiração de alívio por saber que nunca mais teria que passar por esse nível de dúvida e de angústia novamente.

À medida que respirava, pensava na próxima pergunta para o Mestre. E perguntou ao Mestre: “Então, quem sou eu agora? O que serei agora que passei por essa transformação tão profunda, implacável e inexorável? Quem serei eu agora?”

E o Mestre pensou por um instante, lembrando-se de quando ele mesmo fez essa pergunta: “O que vai acontecer agora que a velha identidade foi totalmente pulverizada? Agora que qualquer conexão com o velho eu foi totalmente desfeita, o que vai acontecer?”

O Mestre sorriu, lembrando-se de quando, há muito tempo, perguntou isso a seu Mestre. Ele respirou fundo e disse: “Patrick, você se esforçou tanto pra manter sua velha identidade... Apesar de dizer que estava no caminho espiritual, apesar de dizer que escolhia a iluminação, cada vez que a iluminação vinha ou tentava chegar, cada vez que a verdadeira manifestação ficava diante de você, você se segurava na velha identidade. A velha identidade era limitada. A velha identidade não estava, como poderiam dizer, adormecida ou não desperta. Era apenas altamente limitada. Você se esforçou muito pra tornar essa velha identidade a coisa que estaria iluminada. Você tentou tornar o velho Patrick o ser iluminado, em vez de permitir você inteiro, todo o Eu Sou ser a coisa iluminada.

“Você tentou chamar de iluminação o que muitas vezes era apenas você tentando tornar a vida um pouco mais fácil e um pouco melhor para o Patrick. Você vivia a maior dualidade que um humano pode viver dentro de si – a dualidade de dizer, por um lado, que quer a liberdade, a iluminação e a consciência, enquanto que, por outro, faz tudo que pode fazer pra manter suas limitações, sua velha identidade, sua singularidade, seu velho eu.

“Não é de se admirar, Patrick, não é de se admirar que esses últimos anos de sua vida tenham sido torturantes de muitas maneiras. Não é de se admirar que você sinta que tenha sido falso consigo mesmo de muitas maneiras. Não é de se admirar que você, constantemente, saísse de sintonia consigo mesmo, bem como com o resto do mundo, nestes últimos anos. Não é de se admirar que seus níveis de energia estivessem baixos, porque sua energia ia para o esforço de tentar proteger sua velha identidade – protegê-la contra o mundo externo, protegê-la contra você mesmo, protegê-la até contra a iluminação. Suas energias iam para todos os escudos e muros ao seu redor, todos os jogos e dissimulações. Daí, você ficou exausto e confuso.

“Por tantos anos você viveu num estado de grande conflito interior, de grande batalha consigo mesmo, tentando fazer a coisa certa, tentando ser espiritual; ao mesmo tempo, quer tenha percebido ou não, tentou ornamentar a sua velha identidade. E não funcionou.

“É por isso que você e outros antes de você tenham acabado assim – nesses vinte e um dias, às vezes até mais, de uma compaixão intensa, brutal e impiedosa.

“A partir daqui, Patrick, não existe mais Patrick, a menos que você queira que haja um Patrick. Mas você não é mais singular. Você não está limitado a uma expressão ou uma identidade.

“Para começar, você não é nada. Você é, como diziam na linguagem anciã, você é mu. Nada. Você não existe mais. Você foi esmagado e arrancado da existência. Nada restou. Eu poderia ir mais longe e dizer que não vamos nem usar a palavra mu, que significa coisa alguma, porque no momento em que a diz, ela se torna algo.

“Então, você é coisa alguma. A partir deste momento, você não é nada.

“Mas o nada é como o silêncio. Mesmo o silêncio não é calado. O nada é como algo que você quer ser. Não tem mais a ver com ser apenas Patrick. Não tem mais a ver com ter apenas uma vida melhor. E, certamente, nunca mais terá a ver com essa coisa chamada iluminação ou espiritualidade. Isso era parte de um jogo para que Patrick se fortificasse e ornamentasse a velha identidade com qualquer coisa.

“A beleza e a grandiosidade disso é que você realmente alcançou a iluminação. No final, ela despontou. No final, depois de toda a brutalização e todo o desmantelamento da velha singularidade, você chegou lá.

“Você se tornou tudo no nada. Você não precisa mais focar o Patrick. Você não é mais singular. Você não está mais apenas vivo ou apenas morto. Você se tornou todas as coisas. Você não é mais masculino nem feminino.

“A beleza desse nada é que ele libera você. Libera você para a verdadeira atuação da consciência. Em outras palavras, querido ex-Patrick, qualquer coisa que você escolher daqui pra frente, qualquer consciência que você escolher, pode ser desempenhada. Entenda, antes desse estado muito limitado de Patrick, não era uma atuação. Era a única realidade. Você não se via como se estivesse atuando. Você se via como se estivesse vivendo.

“Mas, quando alguém, enfim, permite sua manifestação, é como liberar a consciência. E, nesse momento, você atua, você pode ser qualquer coisa que quiser. Você pode ser um mágico, um mago. Você pode ser uma pessoa simplória. Você pode ser tudo ao mesmo tempo.

“Você pode ser um Mestre encarnado e pode ser alguém que é totalmente inconsciente de que existe algo além do campo de visão. E você pode ser ambos ao mesmo tempo. Você pode ser abundante ou não abundante ao mesmo tempo.

“O bonito é que você se libera pra atuar do jeito que quiser, e pra estar consciente disso. Veja bem, antes, você não era realmente consciente. Você não tinha percepção. Antes, você era tão singular que estava inconsciente de qualquer coisa além da sobrevivência de Patrick.

“Agora que está livre disso, você pode atuar e ser qualquer coisa que quiser. É verdadeiramente a atuação da consciência, da percepção, expressa do modo que você quiser. Isso, meu caro Patrick, é liberdade. Isso realmente é liberdade.

“Imagine, um instante, não estar preso numa única definição de si mesmo. Imagine, um instante, não entrar mais em conflito consigo mesmo, mas, em vez disso, estar livre pra atuar, pra aplicar a consciência a qualquer coisa.”

Patrick respirou fundo e perguntou: “Então, estou iluminado agora, querido Mestre? Sou iluminado?”

O Mestre respirou fundo, sorriu e disse: “Se escolher ser.”



(História contada por Adamus no Shoud Kharisma 2)


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