O Mestre e o estudante Harold - Sinta-se Vivo

 Harold adorava a época do Natal. Adorava tanto que resolveu fazer a decoração final da enorme árvore de Natal no grande salão da escola espiritual. Chegou antes dos outros sequer acordarem naquela manhã pra dar os toques finais numa árvore de quase sete metros de altura. Era enorme.

Pegou a escada alta. Pegou todos os enfeites e ornamentos, espalhou-os ao redor pra que pudesse ter fácil acesso a eles e começou a subir a escada, segurando, é claro, a ponteira da árvore, aquele anjo lindo, o anjo de cristal que seria colocado no alto da árvore. E, enquanto dava esses últimos retoques no topo da árvore, ele ouviu a porta do salão abrindo, virou-se e viu que era o Mestre. O Mestre.

E, nesse momento em que fazia o acabamento da árvore, nesse momento, nas primeiras horas da manhã, vendo o Mestre, é claro, vocês podem imaginar o que aconteceu ao pobre Harold. Ele se virou, perdeu o equilíbrio, caiu da escada, em cima das caixas de enfeites que estavam no chão, e, assim, quebrou o braço, quebrou duas costelas e cortou o rosto num dos adornos de vidro. E desmaiou.

LINDA: Awww.

ADAMUS: O Mestre, em pé, no fundo da sala, não se sentiu nem um pouco mal com o que acabara de acontecer a Harold, pois entendia que tinha sido algo perfeito pra Harold.

O Mestre caminhou até onde o corpo de Harold jazia inerte, ainda segurando o anjo de cristal, ou vidro, que ficaria no alto da árvore, e que agora estava parcialmente quebrado, com pedaços dele no rosto de Harold, olhou pra ele, vendo o sangue escorrer de seu rosto, respirou fundo, pegou seu Apple iPhone 6 – estamos fazendo propaganda de produtos em nossas histórias agora [Risadas] –, pegou seu Apple iPhone 6 e chamou o 911 (número de emergência dos EUA). Que história adorável até agora. [Adamus ri.]

Em seguida, o Mestre se encontra no hospital, ao lado da cama do pobre Harold, cujo braço estava agora engessado. Ele sentia dores horríveis por causa das costelas quebradas e tinha um vasto curativo cobrindo os muitos cortes na cabeça. De repente, o estudante, Harold, acorda com o Mestre no quarto. Estava despertando, quando o Mestre disse: “Então, caro Harold, o que estava pensando? O que passou pela sua mente nesse momento em que caiu da escada? O que passou pela cabeça? O que estava imaginando?”

Harold pensou um instante, reviu o incidente e disse: “Bem, Mestre, duas coisas importantes. A primeira foi se eu iria viver. Foi uma longa queda daquela escada. Havia muitas caixas no chão. Será que eu escaparia vivo? Não sou mais tão jovem. Foi uma longa queda. Será que vou viver?” E o Mestre disse: “Sim. E o que mais?” Harold disse: “Veja, eu estava naquela sala sozinho terminando a árvore. O que pensei comigo mesmo foi que tenho uma vida ótima. Tenho dois filhos maravilhosos. Tenho uma boa esposa. Estamos casados há tempos. Tenho uma casa bacana. Mas fiquei me perguntando: ‘O que realmente fiz?’ Participo dessa sua comunidade espiritual, Mestre, nos últimos cinco anos. Mas o que realmente fiz? Será que é tudo uma distração? Será que aprendi mesmo alguma coisa? Será que estou dando voltas sem sair do lugar? Será que é só uma distração numa vida que, do contrário, seria enfadonha? Esses eram meus pensamentos.”

O Mestre falou: “Perfeito. Absolutamente perfeito.” E ele disse a Harold: “Veja bem, quando as coisas acontecem, quando há uma queda, quando tem um acidente, quando coisas desse tipo acontecem, sempre volte pro que passou na sua mente naquele momento, porque é o que determina a situação.

“Aí estava você, decorando a árvore para o Natal, pensando no seu progresso, pensando se tem feito um bom trabalho em sua busca espiritual. Harold, você estava pensando no seu compromisso e se estava sendo verdadeiro consigo mesmo, se estava sendo sincero. E, de repente, tudo saiu do equilíbrio. Não foi porque eu entrei que você perdeu o equilíbrio. Eu entrei porque você perdeu o equilíbrio. Eu fui a distração perfeita, a razão perfeita pra você se virar na escada, perder o equilíbrio e cair. E, com isso, diversas coisas aconteceram. Você se perguntou se estava realmente vivo. Será que você está realmente vivo? Aqui está você agora no hospital, provavelmente agradecido por não ter sido pior, não ser algo permanente. Você vai se curar bem rapidamente. Mas você precisava reconsiderar sua vida.

“Os humanos são interessantes, de certo modo. Muito interessantes, porque, mais do que tudo, querem se sentir vivos, mas nem sempre sabem como. Os humanos fazem coisas estranhas pra se sentirem vivos, Harold, como despencar de uma escada. Você pode achar que foi um sinal lá de cima, mas não foi. Foi uma forma de você se sentir vivo. Certamente, acenar pra morte fez você se sentir vivo. Estar com dores, como agora, na verdade, faz com que você se lembre que está vivo. Dor é uma coisa engraçada. Embora seja algo muito difícil e sofrido, ela lembra você, de um jeito estranho, de que está vivo.

“Por que os humanos fazem coisas, às vezes, coisas traiçoeiras e dolorosas, só pra se sentirem vivos? Por que os humanos dirigem a toda numa rodovia, com uma velocidade assustadora, só pelo gosto de se sentirem vivos? Por que os humanos ouvem música com o som muito alto, além dos limites de tolerância auditiva? Por quê? Porque faz com que se sintam vivos. Esse barulho, essa vibração, esse poder e energia externos, entrando pelos ouvidos e distorcendo o cérebro, faz com que se sintam vivos.

“Por que os humanos argumentam com outras pessoas, alguns reivindicando amor? Porque isso faz com que se sintam vivos. É, Harold, uma simples discussão faz com que você se sinta vivo. Faz as coisas acontecerem, pois, do contrário, poderia ser uma vida chata, uma vida em que se pergunta se está realmente vivo, se realmente vale a pena, se está realmente fazendo algo de valor.

“Por que os humanos participam de jogos radicais? Por que os humanos se cortam intencionalmente? Por que os humanos tomam drogas ou bebem em excesso, Harold? Porque isso faz com que se sintam vivos.

“Existem, de fato, formas melhores de se sentir vivo, mas pouquíssimos humanos realmente percebem isso. Então, lançam mão desses desafios externos. Fazem coisas extremas só pra se sentirem vivos, porque não há nada pior, nada pior do que se sentir morto, se sentir paralisado, se sentir inútil, mesmo que ainda tenha um corpo físico.

“Então, eles fazem coisas muito, muito estranhas. A sua queda da escada, Harold, foi, de certa forma, uma resposta a uma pergunta que você se fazia quando subiu aquela escada: Será que você está fazendo algo significante na vida? Será que você está realmente vivo?

“E a pergunta verdadeira, Harold: Será que você está se permitindo sentir? Será que você está se permitindo sentir a vida? Ou está fechado pra ela? Você está acomodado? Será que está sempre tendo que satisfazer outras pessoas? Dar pros outros primeiro? Não se pode se sentir vivo desse jeito. Não. Na realidade, quando você faz isso, quando coloca sempre os outros em primeiro lugar, cada dia que passa você se sente um pouquinho mais morto, porque os outros levam a energia e você permite que façam isso.

“Quando você caiu dessa escada e sentiu uma dor excruciante, chegando a desmaiar por causa da dor, isso fez com que você se sentisse muito vivo por ter dor. Não é estranho?

“Harold, conheço você há cinco anos. Você é um excelente estudante. Mas, Harold, você está questionando. Você está se questionando. Você está se segurando. Você ainda acha que é muito importante fazer tudo pra todo mundo, que todo mundo precisa ficar feliz. Você ainda se limita. Você ainda se sente envergonhado por ter mais na vida.

“Então, Harold, de certo modo, de certo modo, você está se matando aos poucos, dia após dia. E você diz pra si mesmo, bem, que você é um bom pai, você tem um ótimo trabalho, você não tem dívidas. Mas você sabe, assim como eu, que você realmente não está se sentindo vivo.”

Com isso, Harold desatou a chorar, porque sabia exatamente sobre o que o Mestre falava, e chorar fez com que se sentisse bem. E o Mestre não tentou consolar Harold. Não deu tapinhas no seu ombro ou na cabeça, mas disse que tudo ficaria bem, porque sabia que chorar nesse momento o faria se sentir vivo novamente. Ele sabia que essas lágrimas, essas emoções e toda essa liberação o estavam abrindo pra sua alma.

Nesse exato momento, a porta abriu e entrou um coro que começou a cantar uma linda música natalina. E o Mestre disse: “Ouça, oh, Harold, os anjos cantam.” [Risadas com a careta de Adamus] E Harold gemeu e se lamentou, não por causa dos machucados, mas pelo senso de humor precário do Mestre.

E assim termina o Memórias de um Mestre. [Risadas de Adamus e aplausos da plateia]

E, chegando ao ponto, caros Shaumbra, sintam-se vivos. Vivos.

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