O Mestre e O Banco de Praça

A história está neste novo livro, Memórias de um Mestre. É, na verdade, a única história que não fui eu que escrevi. Foi escrita por Cauldre, por Geoffrey, por sugestão minha, e chama-se O Banco de Praça.

Eu dei a ele a visão geral da história, que é, em grande parte, a história dele, em grande parte, a história de todos vocês. Mas eu queria falar um pouquinho sobre a história chamada O Banco de Praça.

Há muito simbolismo, muita metáfora, nessa história. A história começa com o Mestre sentado num banco de praça, mais ou menos assim como estou agora. [O cenário de Natal do palco, este ano, inclui um banco semelhante ao de uma praça, onde Adamus está sentado.] É bem cedinho de manhã; o sol nem despontou ainda no horizonte, ainda está escuro. Vocês sabem, aquele período lindo da manhã, que é bem tranquilo e silencioso, repleto de paz. É quando todo o ruído da consciência de massa está bem baixinho, mais quietinho, porque a maioria dos humanos ainda não saiu de casa. Não tem muito tráfego. É um horário agradável da manhã e, se não bastasse, vocês ainda podem ver o sol surgir. É incrível, por si só, esse momento cedinho de manhã, logo antes de o sol começar a despontar no horizonte. É o momento do Mestre. É um lindo momento do Mestre.

O Mestre está sentado no banco de praça. Ele tinha seu café, é claro, e alguns croissants. Era um tempo de tranquilidade longe dos estudantes. Ele adorava os estudantes, adorava trabalhar com eles, mas isso tinha um ônus, era desgastante. Havia muitas frustrações em se trabalhar com os estudantes, porque, por mais que eles realmente quisessem sua realização, algo ainda os segurava. A parte humana deles, na verdade, ficava tentando segurá-los, por isso era exaustivo, às vezes, mesmo para o Mestre.

Mas, nessa determinada manhã, agora com o sol começando a surgir no horizonte, o Mestre sabia que não se trataria dos estudantes, não se trataria dos outros humanos, se trataria de seus próprios aspectos, dele, do Mestre. Ele sabia que seria uma manhã sobrecarregada, porque era nesse banco de praça que todos os aspectos do Mestre sabiam onde encontrá-lo. Eles sabiam que, se não o encontrassem noutro lugar, na sala de aula ou mesmo em seus sonhos à noite, podiam encontrá-lo nesse banco de praça. É mais ou menos como foi quando ele se abriu, quando ele se fez disponível para os aspectos. E é nesse cenário que a história do banco de praça tem lugar.

E foi nesse dia, na história O Banco de Praça, que apareceu o aspecto de mais escuridão do Mestre, que ele chamava simplesmente de “Sombrio”, nada mais. Eles não falavam com palavras. O Mestre não ouvia o Sombrio com palavras, porque, na verdade, Sombrio, esse aspecto muito perverso, pode-se dizer, é muito avançado, muito psíquico e faz parte do Mestre; portanto, palavras não são necessárias. Alguns outros que eu chamaria de aspectos inferiores ou menos complexos, podiam falar com o Mestre através de palavras, mas Sombrio não precisava de palavras.

O Mestre podia sentir que Sombrio estava se aproximando, porque tudo ficava frio. Ele sentia o efeito de um aspirador de pó; sentia a sucção. Essa energia escura é assim.

E, imediatamente, ao se aproximar, Sombrio era violento. Repito, não através de uma linguagem, mas dos sentimentos que eram transmitidos. Sombrio começou dizendo: “Seu velho bastardo maluco. Fica aí sentado num banco de praça se achando todo iluminado, achando que está ensinando alguma coisa pros outros.” É assim que os aspectos obscuros trabalham. Eles degradam vocês. Eles o fazem duvidar de si mesmos. Eles os despedaçam. Eles conhecem a parte mais obscura de vocês. Eles sabem como atingi-los. Eles sabem como rebaixá-los.

Mas o Mestre ficou sentado lá. O Mestre bebeu um gole do seu café – que caía muito bem naquela manhã fria –, bebeu seu café e observou os gloriosos raios de sol que começavam a surgir no horizonte. O Mestre não estava evitando o Sombrio, não estava tentando fingir que ele não estava lá, mas o Mestre nunca deixava esse seu aspecto obscuro incomodá-lo. Ele era o Mestre. Ele era o observador de todas essas histórias que aconteciam, que ainda aconteciam, mesmo que ele fosse o Mestre.

Sombrio continuava com seu comportamento abusivo dizendo: “Você fica dizendo pra si mesmo que é iluminado, mas não é. Você diz pra si mesmo que é melhor que os outros, mas você é pior.” Sombria continuava: “Eu conheço a sua história. Eu sei de todas as coisas que você fez de errado. Conheço todos os seus segredos horríveis. Eu conheço. E, se eu contasse o que eu sei aos outros, eles nunca frequentariam a sua escola, não escutariam as suas palavras, porque você é só um humano desprezível e todo esse negócio de Mestre, de iluminação é pra encobrir a mentira que você é.”

Talvez alguns de vocês ouçam essas mesmas palavras de tempos em tempos, mas o Mestre respirava fundo, comia um pedaço de croissant, bebia mais café e não deixava que isso o abalasse nem um pouco.

Nesta história, Sombrio é insistente, mas o Mestre fica observando as pessoas passando, um cão com um bola, e fica totalmente envolvido com as demais coisa, embora continue ouvindo e vendo o Sombrio.

O ponto central desta história – um ponto muito importante – é que temos o Mestre aqui e o humano e, colocando em termos humanos, diria-se: “Bem, se o Mestre está iluminado, por que todos esses aspectos estão lá? Se o Mestre é tão iluminado, por que teria uma energia obscura? Não estaria tudo curado?” E a resposta é que certamente não. Isto é o e, e é onde cada um de vocês está.

Vocês são o Mestre sentado no banco de praça, curtindo um café, vendo o sol nascer, comendo alguma coisa, gostando de observar o cãozinho e tudo mais. Vocês se sentem no que chamam de completa paz, mas é uma liberdade total. Vocês são o Eu Livre e ainda aquele eu humano. Não estamos tentando negá-lo. Não estamos tentando eliminá-lo. Não estamos tentando acabar com o aspecto humano, o aspecto obscuro ou qualquer outro. Nós somos o e.

O Mestre se senta lá, ouve os aspectos, sente os aspectos. O Mestre fica sentado lá, porque sabe que cada aspecto, obscuro e luminoso, grande e pequeno, sabe onde encontrá-lo. Eles vão lá simplesmente pra estar na luz do Mestre. Mesmo o Sombrio faz isso. Sombrio é uma parte atormentada, pode-se dizer, de outra existência. Não importa. Tudo está no Agora neste momento. O Sombrio é uma parte real do Mestre e de vocês, assim como a luz, assim como o aspecto criança, assim como o aspecto religioso e espiritual, assim como todos os aspectos. Eles são todos partes de vocês. São todos partes desta linda história.

A realização é esse reconhecimento de que vocês são o Mestre sentado no banco de praça, o humano, o obscuro, o medroso, o feliz, o criativo e o irritado. E, quando vocês se permitem ficar sentados como o Mestre, como o observador de todos esses aspectos, de todo esse movimento e essa comoção, de todas essas partes da história que estão tentando se encontrar, quando vocês ficam sentados aqui neste momento “e”, “Eu Sou e Eu Sou o Mestre”, sem tentar se livrar de nenhum aspecto, nem de qualquer vida passada ou futura, sem tentar alcançar algum pico da iluminação, simplesmente ficar aqui como o Mestre também, é quando vocês podem respirar fundo e celebrar a si mesmos, é quando vocês chegam à realização, ao reconhecimento de “Eu Sou e Eu Sou”. Vocês são o Mestre. Vocês só não se permitiram se sentar aqui e sê-lo.

Sim, meus caros amigos, por mais que o Mestre no livro seja o Mestre, por mais que eu seja um Mestre, ainda existem aspectos do passado e do futuro. Eles ainda estão lá. Eles não estão mais presos, mas ainda estão lá. O Mestre não se abala com eles. O Mestre não usa isso pra dizer: “Bem, então, eu não sou um Mestre se eles ainda estão lá.” O verdadeiro Mestre diz: “Eu Sou e Eu Sou.” E essa é a beleza da história O Mestre e o Banco de Praça. Isso nos leva de volta ao que falamos no início da nossa sessão de hoje.

O tempo começa a se dissolver, e vocês se sentam aqui como Mestre da sua própria vida, apenas observando. Sem tentar mudar quaisquer aspectos. Vocês se sentam aqui. Isso, em si, tem um efeito profundo em cada um desses aspectos, quer venham de uma vida passada ou de uma vida futura. Isso, de repente, coloca eles como o Mestre, sentados no banco de praça deles, na existência deles, nessa história. De repente, não se trata de vocês sozinhos, sentados no seu banco de praça, como Mestres, mas cada existência passada e futura se torna Mestre também. Então, tudo muda.

Como Tobias disse há muito tempo: “O futuro é o passado curado.” Eu direi de um modo um pouco diferente, que cada existência realiza o Mestre dessa determinada existência. Isso se transfere, isso irradia pra cada existência, e essas existências que estão presas em seus padrões, que estão presas no próprio tempo, de repente, começam a se transformar.


(História contada por Adamus no Shoud Transumano 4)

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